A Reforma Protestante do século XVI

21/08/2006 10:10

 "A grande Reforma Protestante foi uma gloriosa reivindicação (reaquisição) do Espírito de Cristo contra a imoralidade pagã do regime pontifício"
(Rui Barbosa)


1. No início da era cristã, a Igreja era uma só. Depois dos apóstolos passaram a integrá-la figuras notáveis, de extraordinário saber e espiritualidade - os chamados "Pais da Igreja" - como Policarpo, Inácio, Papias, Justino Mártir, Irineu, Orígenes, Tertuliano, Eusébio de Cesaréia, João Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho, dentre outros.
Com o passar do tempo, ainda estiveram à frente da Igreja alguns homens bons e puros, como Gregório I (590 - 604), considerado o primeiro Papa verdadeiro, mas também muitos outros que nada valiam. Só para exemplificar, nesse cemitério de figuras deletérias, lembramos que após o Papa Nicolau I (857 - 867), e antes do Papa Gregório VII (1073 - 1085), passaram-se cerca de duzentos anos apelidados de "a meia-noite da Idade Média", por ser, talvez, o período mais negro de toda a história da Igreja, durante o qual abundaram o suborno, a depravação, a imoralidade, a corrupção e o derramamento de sangue.

2. Sempre houve divisões no seio da Igreja Cristã.  E crises.  E reação.  Já no século IV, quando o Imperador Constantino uniu a Igreja ao Estado, houve inconformismo e protestos.  Mas o primeiro grande cisma ocorreu em 1054, ao tempo do Papa Leão IX: a separação da Igreja Oriental ou Ortodoxa.  Outra crise aconteceu entre 1378 e 1407, quando foram eleitos, ao mesmo tempo, dois ou três Papas, que se excomungaram reciprocamente.
Assim, o movimento do século XVI não foi conseqüência do capricho meramente casual de um homem: tem raízes no tempo e no espaço.  Antes de 1517, houve quem se insurgisse contra práticas e costumes danosos que depunham contra o caráter santo da Igreja, como a simonia (compra e venda de cargos eclesiásticos), o nepotismo (favorecimento de parentes nas indicações para cargos) e a venda de indulgências.

3. O que eram as indulgências?  Eram a compra do perdão, a absolvição das penas devidas ao pecado já perdoado.  O castigo assim removido podia ser neste mundo - por pecados já cometidos ou a serem ainda praticados - ou no purgatório, que é, como sabemos, uma invenção católica romana.  As almas que lá se encontram podem ainda receber indulgências, pelos bons ofícios da Igreja de Roma.
Em 1517, João Tetzel, emissário do Papa Leão X (um corrupto que tudo negociava e vendia, e que fora sagrado arcebispo aos 8 anos de idade e cardeal aos 13) percorreu a Alemanha vendendo certificados de perdão assinados pelo Pontífice.  Quem os comprasse, bem como seus amigos, receberiam o perdão de todos os pecados, ficando dispensados do arrependimento, da confissão, da penitência e da absolvição pelo sacerdote.  Dizia Tetzel, em sua campanha:  "Ao tilintar de vossas moedas no fundo desta caixa, as almas dos vossos amigos saem do purgatório e entram no céu".

4. Talvez tenha sido esta a gota d'água que provocou a reação do monge agostiniano Martinho Lutero.  Ele já vinha tentando que a cúpula da Igreja corrigisse aquelas distorções.  Não foi ouvido.  Destarte, no dia 31 de outubro de 1517, bem cedo, afixou na porta da Igreja de Wittenberg, para que fosse lido por todos os que comparecessem à missa do Dia de Todos os Santos, um extenso documento contendo 95 teses, ou parágrafos, intitulado "Debates sobre o Poder e a Eficácia das Indulgências".  Lutero convocava o povo daquela cidade para um debate público sobre a situação religiosa reinante, ferindo assim, de frente, a autoridade do Papa.

5. A parte talvez mais importante do estudo sobre a Reforma seja a dos seus fundamentos ou princípios.  São eles:

a) Suprema Autoridade da Bíblia
Este princípio quer simplesmente dizer que as Escrituras - Velho e Novo Testamentos - são a primeira e última palavras em matéria de fé e prática.  A Igreja Romana coloca a tradição - coisa de homens - no mesmo pé de igualdade com a Bíblia e considera infalíveis as decisões dos Papas e concílios.

b) Justificação pela fé
O pecador arrependido, que tem confiança nas promessas de Deus, pode ir imediatamente implorar-lhe perdão, em nome de Jesus - nosso único Intercessor e Mediador - e obtê-lo sem interferências clericais e sem o cumprimento de práticas mecânicas.

c) Sacerdócio Universal dos Crentes
Sabemos que a Igreja é o Corpo de Cristo.  Os fiéis são o povo de Deus, os santificados em Jesus Cristo, nação santa, sacerdócio real (1 Coríntios 1.2; 2 Coríntios 1.1 e 1 Pedro 2.9 e 10).

A Igreja Romana havia restringido drasticamente este conceito.  Substituiu o sacerdócio universal dos crentes por um sacerdócio particular de uma classe - o clero.  Os leigos foram excluídos de qualquer participação efetiva na direção e nas atividades da Igreja.
Vicente Themudo Lessa, conhecido estudioso e líder evangélico, escreveu o seguinte, em sua biografia de Lutero: "Roma expunha a teoria dos dois estados: o espiritual ou eclesiástico, que compreendia os bispos, padres e frades, e o secular, que abrangia os príncipes, os nobres, os operários e os camponeses".

6. O que aconteceu com Lutero depois de seu protesto?  Eis uma síntese:
• em 1520, o Papa Leão X expediu uma bula excomungando Lutero e ameaçando-o: se não se retratasse dentro de 60 dias, sofreria "a pena devida por heresia" - quer dizer, a morte.  O monge agostiniano, em 10 de dezembro de 1520, queimou publicamente essa bula;
• em 1521, o Imperador Carlos V, do Santo Império Romano - Germânico (que compreendia a Itália, a Alemanha, a Áustria, os Países Baixos e a Espanha), intimou Lutero a comparecer, para ser julgado, perante a Dieta de Worms.  A Dieta era uma assembléia política ou legislativa existente em alguns países.  Era o dia 18 de abril de 1521.  Antes de enfrentar aquela corte, orou.  Recebeu ordem de retratar-se.  Firme, não voltou atrás.  Foi condenado. Mas não chegou a ficar preso, eis que, no regresso a Wittemberg, foi seqüestrado por ordem do Príncipe Frederico e levado para o seu castelo em Wartburgo, onde permaneceu, sob proteção e escondido, por quase um ano.  Durante esse tempo, traduziu a Bíblia para o alemão;
• Lutero, obviamente, foi forçado a deixar a Igreja.  Casou-se, teve filhos, e até falecer, em 18 de fevereiro de 1546, não parou de escrever e de propagar suas idéias.  Deixou mais de 55 livros, a maior parte dedicada a comentários bíblicos.

7. A Reforma expandiu-se e dela surgiram basicamente três grupos: os luteranos, os calvinistas ou reformados, e os anabatistas - menonitas.  Melanchton, Zwinglio, Calvino, João Knox foram alguns dos líderes que levaram avante a bandeira levantada por Lutero.  A Reforma foi vitoriosa!


"A Reforma não se revoltou contra a autoridade, mas contra a usurpação da autoridade; não se insurgiu contra a Igreja, mas contra a perversão do seu conceito".
(Eduardo Carlos Pereira)

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