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“Bíblia: o Livro da Direção”

“Bíblia: o Livro da Direção”


Palestra da plenária de agosto de 2019


“E os teus ouvidos ouvirão a palavra do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele, sem vos desviardes nem para a direita nem para a esquerda” (Is 30.21).


“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6).


Preliminares:


1. O assunto é fascinante e, à primeira vista, ligado à Bíblia, pouco usado.

2. A matéria acadêmica que mais pode cuidar do assunto é a Antropologia Filosófica que, no seu bojo, aborda a questão da direção.

3. Nesse particular, a Antropologia Filosófica põe o espírito do homem, diferença principal entre o homem e os outros animais, como ponto fundamental da direção.

4. Uma outra diferença importante entre o homem e os animais apontada pela Antropologia Filosófica, é a “especialização”. Os animais, por exemplo, não precisam de comando externo de direção. Sua estrutura, sua natureza, já estão especialmente dotadas para fazer aquilo de que precisam para sobreviver. É o caso da migração de certas aves de clima frio, para um clima quente, na época do inverno no seu habitat.

5. Já o ser humano precisa de direção, de orientação, porque sua inteligência é que a elabora e, como “pecado é erro de direção, de alvo”, o pecado atrapalha a inteligência humana no fator “direção”.

6. Não vamos, no entanto, entrar nesta parte filosófica da matéria. Boas obras, práticas e pouco volumosas, poderão ser consultadas, tais como: Antropologia Filosófica, Henrique C. de Lima Vaz, Vol. I e II, Edições Loyola; Antropologia Filosófica – Questões Epistemológicas, Ernildo Stein, Editora Uijui; Antropologia Filosófica, Edvinon A. Rabuske, Editora Vozes.

7. Evidentemente, a palavra “direção” aqui tem a ver com o homem. Assim, vamos focar a Bíblia como o livro da direção do homem.


INTRODUÇÃO


1. Inicialmente, surge, obrigatoriamente, a pergunta: “Para quê o homem foi criado?”.

2. Olhando do ponto de vista da teologia, podemos entender que Deus não precisava do homem no seu universo para ter de criá-lo.

3. Mas a Bíblia diz que Deus criou o homem para a sua Glória (Is. 43.7; Ef. 1.11,12). Esta foi a finalidade e o propósito de Deus na criação do homem.

4. Por isso mesmo o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Se há outras criaturas em outros Planetas, não sabemos se foram feitas como o homem – à imagem e semelhança de Deus.

5. Também, pela história bíblica, descobrimos que o homem não foi criado para ir para certos objetivos maiores, mas para ficar onde estava, onde também convivia com Deus – no Éden.

6. Foi ali que Deus plantou um Jardim, logo depois de criar o homem e o pôs para cuidar dele.

7. Mas o pecado, a desobediência, estragou tudo e o homem foi posto fora do seu ponto natural de habitat e daí, passou a precisar de direção para retornar a Deus, ao seu lugar.

8. Vamos ver como tudo isso começou.


I – A PERDA DA LOCALIZAÇÃO


1. Sem entrar nos detalhes da queda do homem no Éden, que todos já conhecemos, vamos lembrar que a palavra “pecar”, nos originais hebraicos, “chatah”, quer dizer: “errar o alvo”.

2. Desta forma, ao serem mentalmente induzidos a experimentar o fruto proibido, Eva, e depois Adão, saíram da sua localização, e se desviaram da verdadeira direção da vida – “a árvore do conhecimento do bem e do mal” era o objetivo errado. Eis porque havia sido proibida por Deus.

3. A manobra foi tão desastrosa que mexeu em toda a estrutura do ser humano, até mesmo na sua genética, e então tiveram de ser postos fora do Éden.

4. Posto fora do Éden, e tendo sido perdida a noção da porta do Jardim, o homem ficou desorientado – sem oriente.

5. Então ele precisava achar a direção de sua localização, onde estava o seu Criador.

6. Desenvolvendo-se fora de sua localização original, o homem perdeu-se cada vez mais.

7. Foi aí que surgiu a ideia de “liderança”. O primeiro grande líder do Planeta Terra foi Deus, que começou a trabalhar para liderar, conduzir, o homem de volta ao seu lugar.

8. Liderança, porque Deus é ético, e não poderia forçar o homem a voltar. Ele precisava trabalhar com a compreensão do homem para que ele aceitasse o plano de voltar. O homem, diferentemente dos animais irracionais, não era especializado, no dizer da Antropologia Filosófica.


II – PLANEJANDO O CAMINHO DE VOLTA


1. Ao encontrar Adão e Eva, que saíram da direção, e estavam desorientados e escondidos no Jardim, Deus acertou tudo com eles, e prometeu mandar um que esmagaria a cabeça da serpente (Gn. 3.15). É o chamado “protoevangelho”

2. Lembrando que, quando Eva iniciou o processo de desvio, ela foi trabalhada no seu entendimento, na sua mente, pelo tentador. Nota-se que o pecado entrou pela mente, e é por aí que terá de sair.

3. Então Deus começou a trabalhar com alguns homens especiais: A Bíblia diz que nos dias de Sete, quando nasceu seu filho Enos, se começou a invocar o nome do Senhor (Gn. 4.26).

4. Da linhagem de Sete, surgiu Enoque, que andou com Deus e Deus para si o tomou (Gn. 5. 22-24).

5. E então surgiu Noé, que achou graças aos olhos de Deus e foi escolhido para construir a Arca, no episódio do dilúvio (Gn. 5. 30-32; 6.8).

6. Depois surge o que eu chamo de “religião tradicional não reveada”, com base em Sete, Enoque, Noé, Abrão, Melquisedeque (Sacerdote do Deus Altíssimo – Gn. 14. 18-20), Jetro ou Reuel (sogro de Moisés, Sacerdote em Midiã – Êx. 2.18; 4.18), e outros.

7. Note-se que ainda não havia livro de Deus. Na minha teologia entendo que Deus estava preparando o mundo para alcançar uma certa “maturidade mental” para poder achar a direção – essa maturidade mental que perdera no Éden.

8. Notamos essa necessidade no seguinte fato: quando a Lei começou a ser dada por Moisés, muitas coisas entraram nessa Lei como regras religiosas, mas na verdade eram coisas humanas, de higiene, pois o povo ainda não tinha maturidade mental para entender. É o caso do hábito de enterrar as fezes no ato de evacuação (Dt 23. 12-14); tampar vasos para evitar contaminação ( Nm. 19. 15); os leprosos teriam de cobrir o bigode, isto é, pendurar um paninho nos lábios superiores, também para evitar contaminação ( Lv. 13. 45). O povo não entenderia jamais problemas ligados a bactérias e contaminações – tudo era tido simplesmente como imundo (conceito religioso). Esses conhecimentos só vieram muitos séculos mais tarde.

9. Mas também o povo teria de aprender a lidar com símbolos – outra vez questões de inteligência e da mente, isto é, inventar a escrita e aprender a leitura da escrita.

10.Assim Deus chamou Abrão e fez dele uma grande nação, que se desenvolveu a partir dos 12 patriarcas, filhos de Jacó, mais tarde, Israel.

11.Então Deus preparou Moisés na cultura do Egito para tirar o Seu povo da escravidão.

12.Moisés, evidentemente, sabia ler, escrever e contar, como também, antes dele, José do Egito.

13.Durante os 40 anos que Moisés passou em Midiã, naturalmente aperfeiçoou seus conhecimentos de escrita. Autores renomados dizem que na região se desenvolvia um alfabeto, método mais avançado do que os hieróglifos e cuneiformes daquele tempo.

14.E mais: Allan H. Gardiner chega a dizer que Moisés foi o próprio inventor do alfabeto, pois ele tinha capacidade intelectual para tal. Afinal, ele havia sido educado em toda a ciência dos Egípcios (At. 7.22). Antonio Neves de Mesquita, que concorda com essa tese, tem uma importante página sobre o assunto (Estudo no Livro de Êxodo – Juperp, Rio de Janeiro, 1987, pp. 53-55).

15.E foi ali, no deserto, no Monte Sinai, que surgiu a primeira página do livro da “direção” – os Dez Mandamentos escritos pelo próprio dedo de Deus.

16.E então todos conhecemos a história do Pentateuco.

17.Nesse Pentateuco, Moisés vai dizer: “O Senhor levantará entre vós um profeta como eu. A ele, ouvireis” (Dt. 18.15) – uma clara referência a Gênesis 3. 15.

18.O livro começa a apontar a Direção.


III – O LIVRO E A DIREÇÃO


1. Não dá para desenvolver toda a história da Bíblia. Ver minha revista: A Bíblia – Origem e Formação – Editora Horizonal, Rio de Janeiro.

2. É fascinante a história desse livro, principalmente a maneira como Deus o preservou, material e tecnicamente, para que chegasse até nós.

3. Um dos fatos mais maravilhosos é o achado de MSS na Caverna de Qumram, perto do Mar Morto, em 1947, que garantiu a preservação do texto original mais antigo do que aqueles que foram usados para compor a nossa Bíblia.

4. Ao longo dos anos, surgiram ciências apropriadas para trabalhar com o Livro, tais como: Crítica Textual, Crítica de Forma, Alta-Crítica e outras, e, finalmente, os Massoretas, o que vai corroborar com o plano de Deus no Livro da Direção.

5. Em 356 a.C., nasce Alexandre, cognominado “O Grande”, filho de Filipe II da Macedônia, e discípulo de Aristóteles, que se tornou o grande conquistador do mundo, e nessa conquista, disseminou a língua e a cultura grega, o que seria de grande valor para o Livro da Direção.

6. O feito mais notável nesse sentido, foi a tradução da Bíblia Hebraica (incluindo a Tora e todas as demais divisões), para a língua grega – que resultou na Septuaginta (LXX), que foi iniciada por volta do ano 280/5 a.C., trabalho que durou 100 anos e completou-se cerca de 180 anos a. C. Essa foi a Bíblia usada nos dias de Jesus, principalmente pelos escritores do Novo Testamento, para citar o Antigo Testamento.


IV – A DIREÇÃO NO LIVRO


1. Já no Antigo Testamento, o Livro começa a apontar para o Messias, que nasceria da linhagem de Davi.

2. Um dos textos mais lindos dessa direção está em Is. 9.2: “O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz”.

3. O Profeta Miquéias (5.2), continua mostrando a direção, falando da cidade de onde sairia o Messias – Belém Efrata.

4. Quando foi anunciado a Zacarias o nascimento de João Batista, que seria o precursor do Messias, Zacarias cantou: “E tu, ó menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque hás de ir ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos. Para dar ao seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados, pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, com que o Oriente do alto nos visitou....” (Lc. 1.76-78).

5. A expressão “Oriente do alto”, fala de direção, pois é no oriente que nasce o sol, o referencial da direção geográfica. Mas esse não é o oriente natural, geográfico, mas o “Oriente do alto” – é a direção.

6. A seguir, quando Jesus nasceu, uns sábios do oriente perceberam uma estrela diferente, singular, que anunciava o nascimento de um Rei. A estrela os guiou até o Palácio do Rei Herodes em Jerusalém, onde consultaram os “livros dos profetas”, e depois a estrela os guiou até o local em que estava o Menino-Messias, o Deus Encarnado. Era o ponto final da direção – Jesus Cristo, o Salvador do mundo.

7. E quando Jesus começou seu Ministério, João Batista, seu precursor, apontou para Ele aos seus discípulos, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo. 1. 29). Seus discípulos foram ver onde ele morava e ficaram com ele. No final do dia voltaram anunciando: “Achamos o Cristo” (Jo. 1. 41), isto é, o Messias – era a direção.

8. Mais tarde, Jesus vai dizer: “Eu sou o Caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo. 14. 6) – Era, outra vez, a direção.

9. Certa vez, Jesus pregava um sermão muito duro e o povo começou a se retirar. Jesus olhou para os seus discípulos e disse: “Quereis vós também retirar-vos?”. E Pedro respondeu, cheio de convicção: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo. 6. 67-69). Era, mais uma vez, a direção.

10.Jesus exerceu entre nós um Ministério de cerca de três anos e meio, ensinando e realizando maravilhas. Finalmente, foi preso, condenado, e morreu crucificado. A cruz era um instrumento de punir criminosos, mas no caso de Jesus ela significava muito mais. Antes de mais nada, com sua linha horizontal, fazia o traço de união entre o homem e Deus, que era apontado por sua linha vertical, para cima. E as duas linhas formavam o centro onde Cristo foi crucificado por nossos pecados – era o centro da direção. E Jesus havia dito: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo. 12. 32) – A direção não falha.

11.Finalmente, Jesus ressurreto, é elevado do Monte das Oliveira para os Céus, diante de uma multidão de mais de 500 (1 Co. 15.6) crentes, e os Anjos anunciaram que Ele haveria de voltar da mesma maneira como estava sendo visto subir – É a direção que deve vibrar na vida de cada cristão até à volta de Cristo. Nós o esperamos voltar das nuvens.


CONCLUSÕES


1. A Bíblia, o livro da Direção, é o livro mais vendido e mais lido no mundo, tendo sido traduzido no todo ou em parte, em 2.935 idiomas e dialetos, falados por 6.039 bilhões de pessoas. Só em 2016 foi traduzida para 50 novos idiomas, falados por quase 160 milhões de pessoas. A Bíblia na íntegra está disponível em 563 idiomas, falados por 5.1 bilhões de pessoas, e o N. T. está disponível em 563 idiomas, 1.334 idiomas adicionais, falados por 658 milhões de pessoas (Fonte: Sociedade Bíblica do Brasil). Mesmo assim, a Bíblia ainda não está disponível para 57% dos idiomas mundiais, que são em número de 7.000. Calcula-se que a Bíblia alcançará 98% da população mundial em 18 anos (Fonte: União de Sociedades Bíblicas).

2. Até grupos indígenas. Ilustração: Em meados da década de 70, visitei a tribo dos Xerentes em Tocantínia. O Missionário Batista Carlos Gunter Crieger, e sua esposa. D. Vanda, especialistas em linguística, acabavam de escrever a cartilha da língua Xerente. Eles estudaram a língua e passaram-na para a grafia. Muitos anos depois, em 2002, quando escrevi minha revista para Escola Bíblica Dominical, intitulada: A Bíblia – Origem e Formação, contatei-os para saber como estava a tradução da Bíblia. Naquela ocasião, já idosos, mas firmes na sua missão, haviam terminado a tradução do Novo Testamento para a língua Xerente.

3. Melhor do que uma bússola, que mostra a direção geográfica, a Bíblia está ao alcance de quase todo mundo, principalmente agora, que vem nos celulares e pode ser acessada até pelas crianças, e pode ser compartilhada na velocidade da luz, pela internet, via satélite.

4. Finalmente, nós, servos de Deus em Cristo, temos a incumbência de mostrar a DIREÇÃO ao mundo: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc. 16. 15).

📷

Acad. Damy Ferreira

Cadeira 19


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