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Bíblia: O Livro da Unidade

Acad. Anderson Caleb de Almeida (Cad. 15)


Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar." (1 Pedro 1:3-12)

Nobres Confrades e Confreiras,

Como John Wesley fez questão de registrar no Prefácio de seus Sermões publicados no mundo inteiro, eu também sou um “HOMO UNIUS LIBRI”, HOMEM DE UM SÓ LIVRO: a Bíblia.

Sinto-me honrado por participar destas reflexões em nossa Academia que honran a Supremacia da Bíblia e o princípio do Sola Scriptura.


PRELIMINARMENTE


Preliminarmente fica óbvio que falar da Bíblia como Livro da Unidade, nos remete sem dúvida ao tema da Unidade Cristã. Tema esse dos mais relevantes para a Igreja de Jesus e de profundo interesse dessa Casa de Letras que é também promotora e guardiã da Unidade Bíblica e Cristã.

O tema se faz relevante principalmente diante de números, fatos e afirmações que nos convocam a pensar e refletir:


O site www.igrejacatolica.org, em 2017 afirmou que existiam na ocasião mais de 25 mil denominações cristãs não Católicas distintas no mundo. Já em 1980, Segundo a notícia a Enciclopédia Cristã Mundial da Universidade de Oxford na Inglaterra forneceu o exato número de 20.780 denominações!

O Site Gospel Prime informou já a algum tempo, que os números oficiais do governo apontam que no Brasil os evangélicos seriam na época 42,3 milhões. Na época a previsão era que em 2020 seríamos a metade da população brasileira. A grande e racional questão é: devemos ou não celebrar esse crescimento? Sào todos discipulos de Jesus? Esse crescimento veio seguido de unidade e maturidade?

O Globo.com publicou que desde 2010 uma nova organização religiosa surge por hora no Brasil.

Disse o Papa Francisco em sua homilia na virada do ano de 2018 para 2019, que “ O Mundo esta conectado, porém desunido”. E a igreja? Não vive a mesma realidade? Conectada nas redes sociais, em eventos, Todavia desunida?

Talvez ainda nosso pouco impacto na sociedade brasileira, dentre outras razões, seja devido a nossa pouca unidade ou a má qualidade da nossa unidade.

AFINAL, A UNIDADE DA IGREJA DEVE IMPACTAR O MUNDO.

Tertuliano disse no Século III que os pagãos dos seus dias tinham conhecimento do extraordinário amor dos cristãos e diziam:

“VEJAM COMO ELES SE AMAM MUTUAMENTE E QUÃO PRONTOS ESTÃO A MORRER UNS PELOS OUTROS!”

Nossa desunião certamente traz muitos prejuizos, dentre eles sito aguns:

Nossa desunião prejudica em muito a evangelização e o testemunho...João 17.21

Nossa desunião, e as vezes uma aberta competição, traz escândalo!

Nossa desunião desonra a Cristo e seu propósito;

Nossa desunião enfraquece a Igreja e abafa sua voz: Afinal como disse Rick Warrem no título de um de seus Livros: JUNTOS SOMOS MELHORES!

Ou seja por melhor que sua denominação ou tradição seja, juntos somos melhores.

Sendo assim, eu os convido a refletir comigo em nosso riquísimo tema e olhar para a Bíblia, não só como

O LIVRO DA UNIDADE, mas sobretudo, o LIVRO PELA UNIDADE, o Livro que GRITA PELA UNIDADE, o Livro que nos CHAMA PARA A UNIDADE, como filhos de Deus e família de Deus.

Sendo assim passo a expor meu pensamento:

I – BÍBLIA: EXEMPLO DE UNIDADE , O Livro da Unidade é um Exemplo de Unidade.

No que diz respeito à unidade a Bíblia é magnífica. Há uma variedade de temas diferentes, todavia há um só fio que, singularmente, a preserva una. Todos nós sabemos que a Bíblia foi escrita por vários autores, todavia, o autor supremo foi Deus. A Harmonia dos escritores bíblicos constitui um forte argumento para a harmonia das Escrituras. Sua unidade pode ser assim percebida:

1) A Unidade da Bíblia em Relação ao Tempo

A Bíblia, para ser completamente escrita, levou aproximadamente 1500 anos. Durante esses dezesseis séculos, período que abrangeu a sua composição total, homens usados por Deus foram aos poucos escrevendo o a mensagem divina. Moisés, autor dos cinco primeiros livros da Bíblia (o Pentateuco), não conheceu o apóstolo Paulo, escritor neotestamentário; contudo, como prova da inspiração divina, ambos escreveram em perfeita sintonia. Ambos afirmaram o referencial absoluto: Cristo.

2) Em Relação aos Lugares

Além do tempo, há também a questão dos lugares onde os registros bíblicos se deram. Continente Africano, Continente Asiático e Continente Europeu. Parte foi escrita no deserto (Moisés), parte na prisão (Paulo), parte numa ilha (João) e em outros tantos lugares. Entretanto, apesar de escreverem em lugares tão diferentes, a realidade que falaram de um só assunto é patente e indiscutível.

3) Em Relação as Circunstâncias

As circunstâncias em que os 66 livros foram escritos também são as mais diversas. Davi, por exemplo, escreveu certas partes de seus trabalhos no calor das batalhas; Salomão, na calma da paz. Há profetas que escreveram em meio a profunda tristeza, ao passo que Josué escreveu durante a alegria da vitória. Apesar da pluralidade de condições, a Bíblia apresenta um só sistema de doutrinas, uma só mensagem de amor, um só meio de salvação. De Gênesis a Apocalipse há uma só revelação, um só propósito.

4) Em Relação aos Escritores

A Bíblia foi escrita por mais de 40 autores. Esses autores eram de níveis de vida e estilo cultural os mais distintos possíveis. Participaram como autores: reis, generais, camponeses, estadistas, pescadores, nômades, escribas, um primeiro ministro, um médico, um vaqueiro e outros tantos. Não houve conhecimento entre a maioria, de quem era quem. Alguns não conseguiriam viver na cultura do outro, todavia, não divergiram do tema central que é Cristo.

Seria impossível juntar hoje os melhores escritores da atualidade, vindo de lugares diferentes, de língua diferente, sob um só tema, e eles escreverem um livro tão harmonioso e inerrante como é a Bíblia.

▪ Moisés- Legislador

▪ Josué- soldado

▪ Davi- pastor de ovelhas e Rei

▪ Isaías- estadista e profeta

▪ Daniel- ministro do rei

▪ Zacarias e Jeremias- profetas

▪ Pedro, Tiago e João- pescadores

▪ Paulo- doutor da lei

▪ Lucas- médico 

5) Em Relação aos Idiomas

Três idiomas forma usados para a composição escriturística: Hebraico, aramaico e grego. E, independente da estrutura linguística, e da semântica de cada língua, produziu-se um texto coeso e coerente..

Apesar de tantas e diferentes características em que os livros da Bíblia foram compostos, eles são de uma unidade quase inacreditável. A mente de DEUS, e não propriamente dos seus escritores,flui uniforme e progressivamente através dela, como “um rio que, brotando da sua nascente, assemelha-se a um tênue fio dágua que vai se avolumando até tornar-se num caudaloso "Amazonas" de DEUS”.

6) Em Relação ao Progresso Revelacional

Um exemplo claro de revelação progressiva é demonstrado através da harmonia existente entre o Antigo e o Novo Testamentos – a Palavra de Deus escrita. Embora tenham sido escritos no intervalo de várias gerações, eles são inseparáveis e não apresentam qualquer contradição nas verdades que revelam.

Eles são um só, já que Deus é o mesmo. O Antigo Testamento, através de profecias e símbolos, revela o evangelho de um Salvador vindouro; o Novo Testamento, através da vida de Jesus, revela o Salvador que viera – ou seja, o evangelho tornado realidade. Ambos revelam o mesmo Deus. O Antigo Testamento é o alicerce do Novo. É a chave que abre o Novo. Por outro lado, o Novo Testamento explica os mistérios do Antigo. A Bíblia só ficou completa, o cannon só se fechou com o advento de Jesus e o estabelecimento da Igreja.

Cristo nos oferece um gracioso convite para pesquisarmos as Escrituras e nos tornarmos familiarizados com Ele.

II. A RAZÃO DA UNIDADE DA BÍBLIA

Concordo com o Pastor e autor Reverendo Josadak Lima, quando nos lembra em seus textos que a mente de Deus foi quem guiou e garantiu a unidade da Bíblia.

“ Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” 2 Timóteo 3.16

 1. A Mente de Deus assegurou a unidade e a harmonia da Bíblia. A Confusão é do homem a harmonia é de DEUS. Imaginemos quarenta dos melhores escritores da atualidade, providos de todos os recursos necessários, isolados uns dos outros, em situações diferentes, cada um com a missão de escrever partes duma obra que somadas deveriam formar um todo. Se no final fossem reunidas todas as partes dessa obra, jamais teríamos um conjunto uniforme. Na verdade teríamos algo semelhante a uma colcha de retalhos.

Pois bem, imagine isto acontecendo nos antigos tempos em que a Bíblia foi escrita. A confusão seria muito maior. Numa época em que os meios de comunicação em nada se assemelhavam aos de nossos dias, nada a não ser a mente de DEUS assegurou o sucesso e a harmonia da Bíblia.

2. A mente de Deus nos assegura a perfeição da harmonia Bíblica. Qualquer falta encontrada na Bíblia, será de pura responsabilidade humana, como tradução mal feita, grafia inexata, interpretação forçada, má compreensão de quem estuda, falsa aplicação dos sentidos do texto, etc. Portanto, quando encontrarmos na Bíblia um trecho aparentemente contraditório com o todo dela, não nos apressemos por concluir ser isso um erro da Bíblia. Tenhamos a capacidade de refletir e a humildade de confessar como Agostinho que disse: "Num caso desse, deve haver erro do copista, tradução mal feita do original, ou então, sou eu mesmo que não consigo entender..."

A perfeita harmonia da Bíblia, é para a mente humilde e sincera, uma prova incontestável da origem divina da mesma. É uma prova in- sofismável de que uma única Mente via tudo e guiava os seus escritores.

3. A mente de Deus construiu a catedral da revelação divina. Grandes catedrais, como as de Milão, na Itália, e Colônia, na Alemanha, precisaram de séculos para serem edificadas. Centenas e milhares de trabalhadores foram empregados na sua construção. Certamente ninguém necessita ser in- formado que por trás do trabalho desses edificadores, houve um arquiteto que construiu mentalmente nesses templos, antes de serem lançados os seus fundamentos. Alguém que antes de mais nada, traçou os planos e forneceu até mesmo especificações minuciosas, de modo que a estrutura deve sua simetria inigualável, não aos trabalhadores braçais que fizeram o trabalho bruto, mas àquele único arquiteto, o cérebro da construção, que planejou a catedral em sua totalidade.

A Mente de Deus guiou os escritores e soprou, teopneustos em seus ouvidos, essa é a razão da unidade da Biblia.

III – A UNIDADE DO LIVRO DE DEUS , NOS REVELA SER ELE O LIVRO DA UNIDADE E PELA UNIDADE DO POVO DE DEUS.

Rápidas percepções do ensino sobre a unidade do povo de Deus na Bíblia:

1 – UNIDADE MÍSTICA (Rm 12.5)

Ou seja, é uma unidade que possui como agente motor a Graça Divina. Não é produzida por esquemas pessoais, ou artifícios da mente humana, mas surge por obra de Deus. Aos crentes cabe remover os obstáculos que impedem a ação divina.

2 – UNIDADE DOUTRINÁRIA (At 2,42; Ef 4.15-16)

1) O empenho pela unidade da igreja nunca poderá ser à custa da verdade; ou seja, nossa boa vontade em promover a fraternidade eclesiástica jamais poderá se fundamentar em uma flexibilidade diluidora das nossas crenças fundamentais. Os pilares de nossa fé são elementos inegociáveis. Não podemos esquecer o mandamento apostólico de seguirmos “a verdade em amor”; ou seja , verdade (doutrina) e amor (ética) são irmãos siameses.

3 – UNIDADE HARMÔNICA (Fp 4.2)

Harmonia aplicada a música, segundo o site significados, é “...a concordância ou combinação de vários sons (de diferentes instrumentos), simultâneos ou de acordes que são agradáveis ao ouvido.” A unidade cristã proposta na Bíblia não pressupõe perfeição, nem significa ausência de percalços, mas se estabelece em meio as diferenças e diversidades entre os vários membros do Corpo de Cristo, membros maduros o suficiente para trabalhar diferenças e exercitar paciência e perdão.

4 – UNIDADE PASTORAL (1Co 12.25-26)

1) Pastoral porque mobiliza as engrenagens da igreja em favor do cuidado mútuo.

2) Sacerdócio Universal dos Santos, pressupõe a unidade da igreja, quando nos posiciona como sacerdotes uns dos outros.

5 - UNIDADE AMOROSA (Jo 13,35)

● A Concretude da unidade cristã se torna visível de modo atestemunhar ao mundo a realidade da nossa conformação a Cristo, demonstrada pelo amor recíproco entre os crentes.

John Wesley afirmou:

“E é apenas quando nosso amor se torna gelado, que nós podemos pensar em nos separarmos de nossos irmãos. Este é certamente o caso de alguém que, por vontade própria, se separa dos seus irmãos cristãos. Os pretextos para a separação podem ser inúmeros, mas a falta do amor é sempre a causa real; do contrário, eles ainda manteriam a unidade do Espírito , nos limite da paz.”

Sobre o Cisma, Sermão 75, Wesley,II.1

6. UNIDADE IMPACTANTE (Atos 2. 45-47)

“E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão de casa em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e CAINDO NA GRAÇA DE TODO O POVO.” O impacto da unidade amorosa da igreja.


7. UNIDADE ORGÂNICA: “…um só corpo…” (I Coríntios 12.12)

A figura do corpo aqui se refere à Igreja e explica que ela é um organismo vivo e indivisível.

A Igreja como Corpo é uma unidade espiritual – onde todos os nascidos de novo estão unidos em Cristo. Mas esta unidade tem que se manifestar na horizontal, numa união onde judeus e gentios, homens e mulheres, escravos e livres, são um “em Cristo”.

Comumente gostamos muito de estar com aqueles que gostam das mesmas coisas que nós, mas nos afastamos daqueles que são contrários aos nossos gostos. Supervalorizamos nossas habilidades e desvalorizamos as dos outros. Quando não há entendimento de que somos um corpo, a diversidade gerará divisão e não cooperação mútua. Um corpo saudável é constituído por vários membros e órgãos que trabalham em harmonia.

Conta-se uma história de uma reunião que houve entre as ferramentas de uma marcenaria: a lixa solicitou a exclusão do martelo, pois o mesmo ficava batendo em tudo e fazia muito barulho. O martelo concordou, mas disse que a lixa era muito áspera e grossa. O parafuso foi acusado de ficar dando muitas volta para chegar ao seu propósito. Logo então falaram da régua que se achava certinha e se julgava no direito de medir tudo. No meio desta discussão apareceu o Senhor Marceneiro que reuniu todas as ferramentas e com habilidade utilizou cada uma e fez um móvel maravilhoso e perfeito.

o Ensino das Escrituras é muito amplo. Nosso tempo e espaço não nos permite exceder.

IV – A HISTÓRIA ECLESIÁSTICA E A UNIDADE CRISTÃ

1. Agostinho (354 – 430 d.C.): Babel ou Pentecostes?

Agostinho interpretava a experiência do dia de Pentecostes como um processo inverso ao ocorrido na construção da torre de Babel; neste, os homens, embalados pela arrogância, se puseram a construir aquele monumento, mas acabaram se dividindo pelas dificuldades na comunicação; mas no Pentecostes celebrou-se a unidade do povo de Deus, cujos membros, pertencentes a povos distintos puderam ouvir, milagrosamente os apóstolos na mesma língua, entendendo a mensagem bem como a universalidade do evangelho.

* Veja o que diz este pai da igreja:

Aquele vento purificava os corações da palha carnal; aquele fogo consumia o feno da antiga concupiscência; aquelas línguas em que falavam os que estavam plenos do Espírito Santo prefiguravam a futura igreja, mediante as línguas de todos os povos. Pois assim como depois do dilúvio a soberba impiedade dos homens edificou uma grandiosa torre contra o Senhor, ocasião na qual o gênero humano mereceu ser dividido pela diversidade de línguas, de modo que cada nação falasse na própria língua para não ser entendido pelas demais; assim a humilde piedade dos fiéis reduziu essa diversidade de línguas à unidade da Igreja; de maneira que aquilo que a discórdia tinha dispersado, o reunisse a caridade; e, assim, os membros dispersos do gênero humano, qual membros de um mesmo corpo, fossem reintegrados à unidade de uma única cabeça, que é Cristo, fundidos na unidade do corpo santo mediante o fogo do amor (AGOSTINHO DE HIPONA, Sermão 271; apud. Lecionário BONDAN, Fernando José (Tradutor e Compilador). Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 113).

2. Gregório de Nissa (330-395 d.C.): Líderes e Liderados que Promovem a Unidade

a) Lideres que Promovem a Unidade Vacinam-se contra o fascínio pelo Poder

Os superiores deste coro espiritual devem considerar a grandeza deste cargo, prever os artífices do mal que constroem ciladas para a fé, e correr a carreira de maneira que convém a sua autoridade, sem que nunca o poder lhe inspire ideias de grandezas. Porque ali reside um perigo; e alguns que pareciam ser superiores aos demais e dirigiam-lhes para a vida celestial, perderam-se secretamente por seu orgulho(GREGÓRIO DE NISSA, De Instituto Christiano, 2ª. parte; apud. Lecionário BONDAN, Fernando José (Tradutor e Compilador). Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 471).

b) Líderes que Promovem a Unidade Cristã com Prudência

Vocês também, deixando toda animosidade contra os irmãos, e toda presunção, ajustem as suas palavras ao vigor e a inteligência de cada um. Deem a um amostras de estima, alerte ao outro, exortem mais a este; como um bom médico que procura remédios segundo a necessidade de cada um (...). Então, te conforme às necessidades da causa, a fim de educar bem a alma do discípulo que tem os olhos depositados em ti, e de apresentar ao Pai a virtude desta alma toda reluzente, como digna herdeira de seus dons (GREGÓRIO DE NISSA, De Instituto Christiano, 2ª. parte; apud. Lecionário BONDAN, Fernando José (Tradutor e Compilador). Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 472).

c) Líderes Promovem a Unidade Cristã apoiados por seus Liderados

Se comportarem-se assim uns com os outros – os que estão estabelecidos como superiores, e aqueles que os têm por mestres – uns obedecendo com alegria aos superiores, os outros conduzindo com fidelidade aos irmãos para a perfeição, honrando-se reciprocamente, então viverão sobre a terra a vida dos anjos. Que nenhum sinal de orgulho se manifeste entre vocês; mas sim a simplicidade, a harmonia, um comportamento sincero, forjem o coro (GREGÓRIO DE NISSA, De Instituto Christiano, 2ª. parte; apud. Lecionário BONDAN, Fernando José (Tradutor e Compilador). Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 472).

3. Efrém da Síria (306-373 d.C.): a Humildade freia as paixões que comprometem a Unidade Cristã

Este diácono, hinólogo e teólogo da igreja cristã, em uma carta dirigida a um dos seus discípulos asseverava:

Meu amado no Senhor, quando te preparas par dar alguma resposta, coloque em tua boca, antes de qualquer outra coisa, a humildade, pois bem sabes que por ela todo o poder do inimigo se reduz a nada (...). Meu filho, enraíza-te na humildade e farás que as virtudes de Deus te acompanhem. E se permaneces em um estado de humildade, nenhuma paixão, qualquer que seja, terá poder para aproximar-te de ti (EFRÉM DA SÍRIA, carta a um discípulo; apud. Lecionário BONDAN, Fernando José (Tradutor e Compilador). Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 472-473).

4. Cipriano de Cartago (200-258 d.C.): a metáfora da pomba (Lei da Boa Harmonia)

Cipriano de Cartago que foi bispo e mártir cristão procurou, em uma das obras patrísticas mais importantes sobre unidade (De ecclesiae), encorajava os cristãos a não serem seduzidos pelas heresias, mas ao invés disso, permanecerem unidos na fé e no amor. Argumenta ele...

Por isto também o Espírito Santo desceu em forma de pomba [Mt 3,16; Mc 1,10], animal simples e alegre, sem amargura alguma de fel, incapaz de se enfurecer; não morde, não arranha com as unhas. Prefere as moradias dos homens e gosta de habitar numa mesma casa. Quando criam, as pombas cuidam dos filhotes juntamente, quando viajam, voam pertinho umas das outras. Passam o tempo em tranqüilos arrulhos, manifestam a concórdia e a paz beijando-se no rosto. Enfim, em todas as coisas seguem a lei da boa harmonia.

Esta é a simplicidade que deve reinar na Igreja, essa a caridade que devemos realizar: o amor fraternal imite as pombas, a mansidão e a brandura sejam iguais às dos cordeiros e das ovelhas (CIPRIANO DE CARTAGO. De Ecclesiae. Disponível em https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/s_cipriano_sobre_a_unidade.html, acesso em 07-04-20190).

V – ALGUNS DOCUMENTOS DA IGREJA E A UNIDADE CRISTÃ

1. O Credo apostólico Salienta a Necessidade da Unidade Cristã

“Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal” (Disponível emhttp://www.monergismo.com/textos/credos/credoapostolico.htm, acesso em 07-04-2019).

2. O Credo de Niceia

“Creio na Igreja una, universal e apostólica, reconheço um só batismo para remissão dos pecados; e aguardo a ressurreição dos mortos e da vida do mundovindouro” (Disponível em http://www.monergismo.com/textos/credos/credoniceno.htm, acesso em 07-04-2019).

3. Os 39 Artigos da Religião (1571: Igreja Anglicana)

Artigo 28: sobre a Ceia do Senhor:

A Ceia do Senhor não só é um sinal de mútuo amor que os cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo, de sorte que para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o Pão que partimos é uma participação do Corpo de Cristo; e de igual modo o Cálice de Bênção é uma participação do Sangue de Cristo. (Disponível emhttp://www.monergismo.com/textos/credos/39artigos.htm, acesso em 07-04-2019).

4. A Declaração Doutrinária da Igreja Metodista Wesleyana,(Regimento Interno)

A igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, unidos uns aos outros na fé e na comunhão do Evangelho, observando os mandamentos de Cristo, governados por suas leis e exercendo mutuamnete os dons concedidos pelo Espírito Santo – Mt 18.17; 1Co 14.33; Ef 5.23 (ESTATUTO E REGIMENTO INTERNO – 2015 A 2021 (Igreja Metodista Wesleyana. Editora CPIMW, p. 63).

VI - OS LIMITES DAZ NOSSA UNIDADE: UNIDADE TEM LIMITE?

Devemos viver a unidade sem contudo ter a impressão de estarmos nos promiscuindo.

1. O LIMITE DOUTRINÁRIO - O referencial mínimo.

O Novo Testamento estabelece um referencial doutrinário minimo para se gravitar ao redor.

2 João 1.10

“Se alguém vem ter convosco e não traz esse ensino, não o recebais em casa, nem tao pouco o saudeis”.

I João 4.1,2

“Amados não creais a todo espírito, mas provai se os espíritos vem de Deus, porque muitos falsos profetas tem saido pelo mundo”…

2. O LIMITE ÉTICO, o referêncial máximo , até onde podemos ir.

I Coríntios 5. 9-12

“ Já por carta vos escrevi que não vos associassem com os impuros;refiro-me com isso não propriamente aos impuros desse mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras, pois nesse caso teríeis que sair do mundo. Mas agora vos escrevo que não vos associeis com alguém que dizendo-se irmão for devasso ou avarento…”

2 Timóteo 3. 1-5

“Sabe porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos; pois os

Homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes…tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o

Poder. Afaste-se também desses…

Quero citar o epigrama que Segundo John Stott em seu Livro Cristianismo Equilibrado, foi atribuído a um certo Rupert Meldenius e citado por Richard Baxter:

“ Nas coisas essenciais, unidade

Nas coisas não essenciais, liberdade,

Em todas as coisas, o amor”

VI - O CORAÇÃO CRISTÃO E A UNIDADE:

COM A PALAVRA JOHN WESLEY

Peço vênia para encerrar com parte de um sermão de John Wesley, fundador do metodismo, avivalista que impactou a Inglaterra do Século de XVIII, cuja biografia é de todos nós conhecida:

Sermão 39, O Espírito Católico, John Wesley.

" Minha pergunta única, no presente, é esta: “Porventura tens tu o coração reto, como o meu o é com teu coração”?  Mas, o que se acha implícito nesta questão?   A primeira coisa que a pergunta envolve é esta: Teu coração é reto para com Deus? Crês em sua existência, em suas perfeições? Sua eternidade, imensidade, sabedoria, poder? Sua justiça, misericórdia e verdade? Crês que Ele “sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder”, e que Ele governa mesmo as coisas mínimas, as mais nocivas, para sua glória e para o bem dos que o amam? Tens a divina evidência, a convicção sobrenatural, das coisas de Deus? “Andas pela fé e não por visão?” Buscas as coisas eternas, e não as temporais?.  Crês no Senhor Jesus Cristo, “Deus sobre todas as coisas, bendito para sempre”?  Revelou-se Ele à tua alma? Conheces a Jesus Cristo, e este crucificado? Habita Ele em ti e tu nele? Formou-se Ele em teu coração pela fé? Tendo de todo renunciado a todas as tuas obras, à tua própria justiça, tu “te submeteste à justiça de Deus”, que é pela fé em Cristo Jesus? Estás “fundado nele, não tendo tua própria justiça, mas a justiça que é pela fé”? E estás, por meio dele, “combatendo o bom combate da fé e apoderando-te da vida eterna”?14. Tua fé está ενεργουμενηδι αγαπης, cheia da energia do amor? Amas a Deus (não digo “acima de todas as coisas”, que é uma expressão a um tempo não-bíblica e ambígua, mas) “de todo o teu coração, e de toda a tua mente, e de toda a tua alma, e de toda a tua força”? Toda tua felicidade tu a buscas somente nele? E encontras aquilo que procuras? Tua alma constantemente “engrandece ao Senhor e teu espírito se alegra em— 259/260 —Deus, teu Salvador”? Tendo aprendido “a dar graças em todas as coisas” achas que “é coisa agradável e confortadora ser agradecido”? Deus é o centro de tua alma, a suma de todos Os teus desejos? Estás, em conseqüência, ajuntando teu tesouro no céu, e reputando todas as outras coisas como esterco e escória? O amor de Deus expulsou de tua alma o amor do mundo”, Estás então “crucificado para o mundo”, estás morto para o que é cá de baixo e tua “vida está escondida com Cristo em Deus”.15. Estás empenhado em fazer, não tua própria vontade, mas à vontade daquele que te enviou, daquele que te fez descer a terra para aqui habitares por um pouco, para passares alguns dias num pais estranho, até que, feita a obra que Ele te encarregou que fizesses, voltes para a casa de teu Pai? Tua comida e tua bebida é “fazer a vontade de teu Pai que está nos céus”? Teus olhos são simples em todas as coisas? Estão sempre fixos em Deus? Estão sempre voltados para Jesus? Apontas para Ele em qualquer coisa que fazes ― em todo teu trabalho teus negócios, tua conversação — ambicionando somente a glória de Deus em tudo: “o que quer que faças, seja em palavra ou obra, fazes tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus, o Pai, através dele”?16. O amor de Deus te constrange a servi-lo com temor, “a regozijar-te nele com reverência”? Tens maior medo de desagradar a Deus dó que da morte ou do inferno? Para ti nada há tão terrível como o pensamento de ofender os olhos de sua glória? Fundado nesse sentimento, “odeias todos os maus caminho”, toda transgressão de sua lei santa e perfeita, e nisto “te exercitas para teres uma consciência livre de ofensa, para com Deus e para com o homem”?17. Teu coração é reto para com teu próximo? Amas, como a ti mesmo, a toda a humanidade; sem exceção? “Se somente amas àqueles que te amam, que recompensa tens?” Amas a “teus inimigos?” Tua alma está cheia de boa vontade, de tema afeição para com eles? Amas ainda aos inimigos de Deus, aos ingratos e ímpios? Tens o coração comovido por sua causa? Podes “desejar” ser temporariamente “maldito” por causa deles?— 260/261 —E mostras este sentimento “bendizendo aos que te amaldiçoam e orando pelos que te maltratam e te perseguem”?18. Mostras teu amor pelas tuas obras? Se tens ocasião, segundo as oportunidades que se te ofereçam, fazes de fato o “bem a todos os homens”, vizinhos ou forasteiros, amigos ou inimigos, bons ou maus? Fazes a eles todo o bem que possas fazer, procurando suprir-lhes as faltas, auxiliando-os no corpo e na alma, no máximo de tuas forças? Se estás assim disposto, que todo cristão diga — se disto estas sinceramente desejoso, rumo a semelhante alvo encaminhando-te, até que o alcances — que todo cristão diga: “Teu coração é reto, como o é o meu com teu coração.”

 “Se assim é, dá-me a tua mão”. Não quero dizer: “Sê de minha opinião”. Não tens necessidade disso: não o espero, nem desejo. Nem quero significar: “Serei de tua opinião”. Não posso fazê-lo: isto não depende de minha escolha. Não posso pensar à minha vontade mais do que posso ouvir ou ver. Guarda tua opinião; eu guardarei a minha — e isto tão firmemente como nunca. Não tens necessidade de tentar a passagem para meu lado, nem levar-me contigo para tua banda. Não desejo que discutas aqueles pontos, nem ouvir ou falar uma palavra relativa a eles. Fiquem todas as opiniões isoladas de um e de outro lado: somente — “dá-me a tua mão”.

Obrigado.

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